Investimentos da ordem de R$ 260 milhões até 2030, parcerias para previsões meteorológicas mais precisas, diálogo com o poder público, ações preventivas, treinamento de equipes e implantação de novas tecnologias. Essas são algumas das ações do segmento de distribuição de energia para enfrentar os desafios impostos por eventos climáticos cada vez mais intensos, em especial o El Niño, que já apresenta seus efeitos e deve se estender até os primeiros meses de 2027.
Com o objetivo de mostrar o que já tem sido feito, a Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) realizou, na sexta-feira (28.ago.2026), em parceria com a Climatempo, o workshop Impactos do El Niño na Rede de Distribuição de Energia, que reuniu jornalistas de todo o país.
Durante o evento, o diretor de Regulação da Abradee, Ricardo Brandão, explicou que para responder a cenários tão distintos, o setor antecipou investimentos, revisou protocolos e ampliou o uso de tecnologia para tornar as redes mais resilientes. Sensores inteligentes identificam falhas em tempo real, enquanto redes autorrecuperáveis, conhecidas como self-healing, conseguem isolar automaticamente os trechos danificados e buscar caminhos alternativos para manter o fornecimento.
As ações preventivas em campo têm papel fundamental, segundo ele, o que também envolve uma forte articulação com o poder público. O objetivo é facilitar a atuação conjunta quando for necessário. Assim, as distribuidoras, a Defesa Civil, o Corpo de Bombeiros, as prefeituras e os órgãos ambientais realizam um esforço coordenado para liberar acessos, retirar árvores, isolar áreas de risco e criar as condições necessárias para que as equipes possam reparar ou reconstruir a rede com segurança.
Os planos de contingência são outra ponta importante. Com base na experiência acumulada nos últimos anos, houve uma extensa atualização. Em termos práticos, quando há previsão de um evento extremo, as empresas conseguem reforçar equipes, ampliar estoques de materiais, reposicionar equipamentos e direcionar profissionais para as áreas de maior risco. Os Centros de Operação acompanham a evolução das condições climáticas em tempo real e coordenam toda a resposta.
Enterramento de redes
Outra questão discutida foi o enterramento de redes, medida frequentemente apontada como uma solução para as interrupções no fornecimento de energia elétrica em caso de eventos extremos. Brandão explicou que não se trata de uma “bala de prata”. Além de ter custos elevados, que podem superar entre oito e dez vezes o da rede aérea, as redes subterrâneas não trazem benefícios em caso de alagamentos, por exemplo.
Também chama a atenção a possibilidade de elevar os custos para consumidores que não foram beneficiados pela medida, explicitando a necessidade de mudanças no arcabouço regulatório sobre o tema.
“Pegando o exemplo de São Paulo, se fizermos o enterramento nos Jardins, região nobre da Capital, quem mora na Zona Leste também vai pagar a mais por esse investimento sem ter sido beneficiado por ele. E até outros municípios da mesma área de concessão também arcarem com isso na tarifa igualmente”, explica Ricardo Brandão, sugerindo a possibilidade de que os investimentos para esse tipo de ação sejam feitos em parceria com o poder público.
Nesta semana, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) abriu consulta pública para debater se deve alterar a norma para incentivar redes subterrâneas, mas com indicativo de manter a regra vigente.
Entendendo os efeitos climáticos
O aquecimento das águas do pacífico sul é a principal causa desse evento, que tem ocorrido com cada vez mais frequência. Segundo Caetano Mancini, meteorologista, especialista em gestão de riscos e head de Marketing da Climatempo, a intensidade do fenômeno acaba interferindo em todos os outros sistemas, gerando alterações importantes.
“O El Niño é como se fosse um grande maestro. Entre todas as ondas é a mais forte e acaba ditando o ritmo das outras, indicando a direção e a intensidade” explica o especialista.
Caetano Mancini defende que é preciso investir em comunicação de qualidade para aumentar a resiliência. Ele acredita que, quanto mais acesso à informação qualificada a população tiver, mais preparada estará para enfrentar os novos desafios.
Para a presidente da Abradee, Patricia Audi, a discussão sobre o tema é de fundamental importância, uma vez que eventos climáticos extremos estão cada vez mais intensos e frequentes.
“Estamos diante de uma nova realidade climática. É fundamental fortalecer a resiliência das redes para responder a esse cenário. Os eventos extremos já fazem parte da realidade do setor elétrico. Por isso, estamos investindo em prevenção e preparação”, explica Patricia.



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