36 cirurgias de reconstrução, fraturas no corpo e a perda total do couro cabeludo. Depois do acidente no eixo de um motor, a vida de Anne Almeida, de 35 anos, mudou drasticamente.
Ela é uma das centenas de vítimas de escalpelamento, acidente em que ocorre o arrancamento do couro cabeludo quando o cabelo entra em contato com o eixo de motor. Na região Norte do Brasil, a maioria desses acidentes ocorre em pequenas embarcações.
Moradora de Abaetetuba, na região nordeste do Pará, Anne foi vítima quando tinha 15 anos e é uma das vozes no documentário “Minha Vida Por Um Fio”.
O trabalho audiovisual foi elaborado por profissionais de Santarém, no oeste do estado, a partir de uma pesquisa de doutorado. Lançado na quarta-feira (29), o documentário retrata as trajetórias de mulheres ribeirinhas vítimas de escalpelamento na Amazônia.
“O escalpelamento é um problema social em nossa região ainda invisível para as demais regiões do Brasil, inclusive para a nossa própria população. Pensando em dar a visibilidade necessária para esse assunto que é tão emergente, produzimos um documentário que expõe as narrativas de atores sociais ligados diretamente a essa realidade”, destacou a jornalista e diretora do documentário, Anna Karla Lima.
Gravações ocorreram de março a agosto de 2021 — Foto: Divulgação
O projeto “Minha Vida Por Um Fio” é resultado da pesquisa de doutorado realizada pelo pesquisador, antropólogo e doutor em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Diego Alano Pinheiro, que também é roteirista do audiovisual.
Durante dois anos Diego Alano se dedicou a estudar os acidentes de escalpelamento na Amazônia, em particular, no estado do Pará.
O trabalho foi premiado como melhor tese em Antropologia e Direitos Humanos em 2020 pela Associação Brasileira de Antropologia, dada a relevância e urgência sobre a temática.
“O observei os itinerários terapêuticos das vítimas e acompanhei os discursos dos agentes sociais diretamente ligados à realidade a fim de compreender as causas do acidente que atinge principalmente mulheres jovens e crianças, causando uma desestruturação na vida social das vítimas, prejudicando significativamente aspectos no que concerne o estudo, trabalho, relacionamentos a imagem corporal”, disse Alano.
As vítimas saem das comunidades onde vivem para buscar tratamento na capital do estado.
“Participar desse documentário é importante para levar esse assunto a vários lugares e pessoas, com intuito de que não ocorra mais com nenhuma mulher ou criança, porque é uma dor terrível”
“São cicatrizes que a gente leva para o resto da vida. O nosso desejo é que ninguém mais sofra com isso”, destacou Anne.
O documentário, contemplado com a Lei Aldir Blanc, tem duração de aproximadamente 60 minutos e foi gravado nos municípios de Santarém, Belém, Abaetetuba, Ananindeua e São Paulo.
O projeto contempla as trajetórias das vítimas, as políticas públicas produzidas e as perspectivas dos ribeirinhos e do Estado.
Fonte: G1 Santarém