Tuíre Kayapó será sepultada neste domingo (11), na aldeia Gorotiré, em Cumaru do Norte, ao lado da única filha biológica que teve, segundo a sobrinha.
“Nos últimos dias ela expressou o desejo de ficar ao lado da filha, que faleceu há alguns anos”, prosseguiu O-e Kayapó, ao explicar que a tia teve somente uma filha biológica. “Ela teve uma segunda filha, mas adotiva. Não teve netos biológicos”, completou.
O velório deve durar algumas horas e nele os indígenas Kayapós irão cantar as músicas dos principais rituais e cerimônias que Tuíre participou ao longo da vida
Atualmente, enquanto se dedicava ao tratamento do câncer de colo de útero, a indígena coordenava um projeto que ensinava outras mulheres da aldeia a costurar.
O falecimento dela foi lamentado por diversas instituições de defesa aos povos indígenas e autoridades. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também manifestou pesar.
tivismo indígena
Sem nunca ter sido intitulada cacique, mas sempre reconhecida como uma liderança dos povos originários no Brasil, Tuíre Kayapó combateu o garimpo em terras indígenas e se posicionou contra o marco temporal. Participou de diversas marchas, em Brasília, para defender os direitos e interesses da comunidade indígena e sempre lamentou não ser recebida em gabinetes no Congresso Nacional.
Ela ficou mundialmente como a guerreira que aos 19 anos de idade desafiou o ‘homem branco’ com um facão encostado no rosto. Foi durante o Encontro das Nações Indígenas do Xingu, em 1989, que a indígena confrontou o então presidente da Eletronorte, José Antônio Muniz, a não construir a Usina Hidrelétrica de Belo Monte, em Altamira.
“Foi lá [no encontro] que ouvi o branco iria fazer coisas ruins na minha terra, no Xingu. Aqui, é minha terra! Não é sua terra não! Foi quando eu coloquei o facão no rosto do branco.”
Esta fala de Tuíre foi dada durante entrevista a Associação da Floresta Protegida, que está produzindo uma biografia da indígena Kayapó.
O projeto de construção da usina ficou parado por uma década, mas a construção saiu do papel, segundo Tuíre, sem que os povos indígenas fossem ouvidos.
Desde o Encontro das Nações Indígenas do Xingu, o facão passou a ser um símbolo que Tuíre carregava para onde quer que fosse. Em alguns momentos, quando lhe faltava voz, o facão empunhado era a sua fala.
Atribuía à avó dela o que aprendeu e a coragem para defender seu povo. Dizia que foi a avó dela sempre pregava que se deveria lutar em defesa da floresta.
“Minha terra, onde nasci, foi no Xingu. Lá é minha terra mãe. Por isso fico brava quando estão estragando o Xingu. Quero a minha terra sempre preservada”, contou Tuíra na entrevista para a Associação da Floresta Protegida.
As entrevistas com a indígena foram na língua Kayapó e traduzidas. Tuíra sempre falou na ‘língua mãe’ de seu povo.
Fonte: G1